Palhaço | s.m | eu, tu, ele, nós, vós, eles;
Hoje é dia de festa! todos cospem fogo de artifício, reclamam o que lhes é devido! Hoje sim, vejo toda a gente na rua movida por uma só causa, a sua. Todos se encontram na dor um do outro, o sofrimento é comum e isso une-nos como povo! Um num canto reclama pela baixa reforma a que está condicionado, no outro extremo da sala a luz foca uma jovem que se queixa do estado precário a que a sua geração está condenada!
Todos gritam, todos festejam! Todos podres, todos cepos! Puta que os pariu, saiam à rua e espanquem a primeira pessoa que virem! Todos somos culpados, todos merecemos que nos desfaçam a tromba até ao estado de massa disforme de vermelho e de poça de carne. Se me vires a mim ou à dona rosa do 4o esquerdo espanca-nos, somos ambos culpados pela merda em que andamos a chafurdar. Todos pela defesa da sua causa, a gritar com um sorriso na cara que isto está mal, a sentir a satisfação de não estar sozinho no meio de uma multidão que está tão fodida como tu. Inteira-te. Estás sozinho, o que tu queres não é o que eu quero e o que eu quero não é o que tu queres, estamos sozinhos nesta orgia onde toda a gente vai ao cú de toda a gente, com sorrisos de orelha a orelha, a enrabar enquanto está a ser enrabado.
Nós só vemos o eu e um gigantesco cagueiro à nossa frente,vítima mais que abusada da penetração grotesca a que é sujeito por parte do nosso majestoso caralho, mas lá no fundo sentimos que algo de errado se passa nas nossas costas. Temos todos medo de virar a cara e de ver os nossos pais, as nossas mães e os nossos irmãos a partirem-nos a anilha como se não houvesse amanhã!
Falta-vos raiva! “O medo corrói-vos o cérebro e danifica-vos os comportamentos”! Fodasse edgar, explica-me de que é feita esta gente! É só isto que há para ver?
Declara-te ligeiramente aborrecido com a situação ou com vontade de partir cabeças, agora não saias à rua com um martelo para o passeares entediado.
É o excesso de informação que te contém não é? As notícias do mundo tornaram-se na tua telenovela? sabe-te ao mesmo falar de milhares de mortes compactuadas pelo teu governo como das calças que queres comprar? tudo isto enquanto tomas um café com um amigo? Se encaras ambos os temas com a mesma leviandade e ainda assim estes pequenos assuntos consomem grande parte do teu dia e do teu discurso, desculpa a crueza, mas estás no abismo de uma overdose de informação e de morte cerebral induzida. Afunda-te na tua poltrona e acredita que o mundo que tu vês na televisão e lês no jornal é o teu mundo, um mundo que te é mostrado através de olhos que não são teus e que estão minguados de tanto filtro. Agarra-te com força ás cordas que te prendem ao sofá. Amarrado, mas confortável o suficiente. Diverte-te.
No dia em que se passar algo puro, algo que venha do coração de cada um e que não se regule por comportamentos gastos de alcateia, ninguém se vai olhar nos olhos, toda a gente vai apedrejar e queimar e foder o que tem a foder e acredita que vai ser a melhor sensação da tua vida.
Por sorte ou azar amanhã é outro dia e amanhã sou outro eu…
Carlos Perdigão